Prémio Contos no mediterrâneo 2012
UAB - Instituto Camões de Barcelona
A música
e o ruído da festa afogam os gritos da noite no fundo da obscuridade.
–De ce? De ce ea?
As vozes,
numa língua ininteligível, anunciam uma a uma as pancadas que caem sobre as
costas, as pernas, a cabeça do Rui; –De
ce? De ce Maria? Perguntam os homens que batem no rapaz, mas sem aguardarem resposta
tornam a bater nele até afogar também o seu desejo de luta. –Maria, disse o menino, e um último golpe
roubou-lhe o alento.
–O que é
que foi isso?
–O quê?
–O som!
Foi um tiro?
–Mas estás
a ouvir tiros Maria? Se tudo é ruído hoje! Está tranquila, tudo vai correr bem.
–Estou
muito ansiosa! E se não for?
–Claro
que irá! Se ele está completamente apaixonado por você!
–Já é
tarde, eu já tinha que estar lá!
–E então?
–A minha
mãe... Acho que ela suspeita... Tão orgulhosa da primeira universitária da
família! Além disso, não posso sair até os meus tios chegarem; são umas bestas,
mas quero vê-los uma última vez, e as crianças não se deitam ainda. Quase não podem
dormir nestes dias.
Não é um
dia qualquer. Talvez amanhã ninguém se lembre dela, mas não é também não uma
noite qualquer, é uma noite de música e barulho, uma noite de festa, e
infelizmente, uma noite de excessos e permissão. Os rapaces percorrem a baixa,
vão aos concertos no parque o bebem copos e cantam divertidos dançando pelas
ruas: E se você quer ser cá da malta, tem
que beber este copo até o fim até o fim!
–Ei! Pessoal!
E o Rui? Pergunta uno deles. E vai acima,
e vai abaixo, e vai ao centro...!
–Foi procurar
Maria à estação velha
–Hoje é o
dia? E bota abaixo, bota abaixo, bota
abaixo...!
–É! Finalmente!
–Bebe cerveja, laralalalala bebe cerveja,
laralalalala, bebe cerveja...!
Nos dias
da queima, como hoje, consente-se aos universitários que se apropiem da cidade,
e ela, acostumada ao silêncio e a tranquilidade, deixa-se raptar pelos
estudantes que, escondidos nas suas capas pretas, cantam-lhe Coimbra do choupal [...] Coimbra onde uma
vez / Com lágrimas se fez / A história dessa Inês tão linda. Quando a
serenada terminar, antes a cidade acordar do seu letargo, os rapazes apoderam-se
das ruas todas, do silêncio todo, e as paredes e o rio são testemunhas silenciosas
das noites longas da loucura dos jovens.
Quase
despercebidos, como se a sua procedência os fizesse também estrangeiros ao festejo,
os homens que bateram no Rui entram numa pequena casa da baixa, distraídos, absortos
de uma festa que não é a sua festa. Em meio da confusão na rua, sem ninguém se aperceber,
uns minutos depois sai de essa mesma casa Maria, a namorada do Rui.
Lá fora
as coisas têm vida própria, ninguém sabe o que passa com os outros nem quer
saber; ninguém se importa. Assim são as noites da queima, e todas se ouvem iguais,
como se ouvem as garrafas de uísque e as latas de cerveja quando chocam; cheiram
todas ao mesmo, como cheira o vinho no chão e o mijo nas esquinas das ruas;
soam todas a música e a gritos, e a rapaces que cantam despreocupados. Terminam
todas da mesma maneira, com uísque e cerveja, música e gritos, vinho e mijo.
A Maria
ri com as imagens que deixam os seus colegas pelas ruas, muitos deles
companheiros desde os primeiros anos de escola, quando costumavam rir-se do seu
romeno e, as mães deles, da rebeldia da sua mãe que clamava pelas salas especiais
onde punham os ciganos. Já tem
saudade da teimosia de sua mãe que insistiu tanto no português e em dividir
(partilhar disse ela) o coração para sobreviver.
Bebe cerveja, laralalalala bebe cerveja...! Música alta, vozerios, brincadeiras; estudantes de capa
que apuram os copos (bebe essa merda,
laralalalala bebe essa merda...!) Que declaram sua a cidade e a noite com
os seus cânticos e berros; Coimbra é
nossa...! Que irão deitar-se ao amanhecer. Coimbra é nossa e há de ser, Coimbra é nossa...
Coimbra e nossa até morrer...! Murmura a menina e pensa que também terá saudades
desta cidade que não é a sua cidade, e dos colegas, que não são, também não, seus. A estação está escura e a menina
prefere pensar em algo seu, o Rui, e nas palavras que ainda ressoam no seu
coração: O meu país são os teus olhos, a
minha pátria, os teus lábios.
A noite
quase termina, ou melhor, o novo dia começa. A música terminou e as turmas
voltam às cantigas das praxes e aos fados. As últimas luzes das luminárias tremam
com a lua no Mondego, assustadas pela proximidade do sol. A Maria oculta-se
atrás de um arbusto ao pé da estrada e sussurra, o meu país são os teus olhos, a minha pátria, os teus lábios.
–E a Maria?
Pergunta a mãe com sotaque romeno.
Ninguém
responde.
A manhã
enceta com um ar pesado; tímido, o sol levanta-se e ilumina a pouco e pouco os
estragos da noite. Uns meninos que vestem pela primeira vez de negro descem a
rua cantando vacilantes: Coimbra é uma
lição [...] O lente é uma canção.
A luz
descobre uma pistola escondida nos arbustos, uma arma conhecida para a menina
que agora percebe o que está a acontecer. Procura mais além, mas sem quer
encontrar, sem quer encontrar mais além um corpo. O livro é uma mulher / Só passa quem souber / E aprende-se a dizer
saudade.
Os homens
da pequena casa voltam à rua enviados pela mãe. –É um erro, tudo foi um erro,
repete a mulher angustiada.
Coimbra
das canções / Coimbra que nos põe / Os nossos corações, à luz.
Ouve-se
então um disparo. Nítido, inconfundível. Os que cantavam calaram, olharam para
o fundo do largo e continuaram a cantar.
E a
cantiga fundiu-se com o eco do disparo.
Coimbra
dos doutores / Pra nós os seus cantores / A fonte dos amores és tu.

